Depois de dívida chegar a quase US$ 2 bi, Constellation conclui recuperação judicial

Antiga Queiroz Galvão Óleo e Gás teve dívida reduzida para US$ 918 milhões e passou a ter novos controladores

A Constellation Oil Services, antiga Queiroz Galvão Óleo e Gás (QGOG), encerrou na sexta-feira o processo de recuperação judicial iniciado em 2018. A empresa de sondas de perfuração para exploração e produção de óleo e gás reduziu a dívida, que chegou a US$ 1,84 bilhão, para US$ 918 milhões e passou a ter novos controladores. Com isso, a companhia começa agora a olhar para o futuro e a estudar alternativas no novo contexto da indústria no país e na transição energética.

Os planos podem incluir até mesmo uma abertura de capital (IPO, na sigla em inglês), diz o presidente Rodrigo Ribeiro. “Foi uma longa jornada, mas agora temos uma estrutura de capital mais compatível com a nova realidade. Dessa forma, podemos começar a trabalhar em avenidas de crescimento”, afirma.

A reestruturação da Constellation incluiu uma injeção de capital de US$ 60 milhões e a conversão da dívida da companhia em participação, movimento que levou a uma nova composição societária. O Fundo Sunstar e Capital, antigo controlador, teve a participação reduzida para 27% e, com isso, os detentores de títulos passam a ser os controladores, com 47% do total. Os 26% restantes estão nas mãos dos bancos credores da empresa.

A dívida bilionária surgiu na década passada. A antiga QGOG investiu em novas sondas para suprir a esperada demanda do mercado com a descoberta do pré-sal. O cenário, no entanto, não se concretizou, com a redução de investimentos da Petrobras depois da Operação Lava Jato e da queda do preço do barril de petróleo em 2014.

“Fizemos os investimentos nas unidades num momento em que as projeções de taxas [pelo afretamento das sondas] eram muito maiores e chegavam a patamares de US$ 600 mil por dia. O investimento é caro, o mercado estava demandante. Isso aconteceu com praticamente todas as companhias do setor”, diz Ribeiro.

Depois desse período turbulento, no entanto, o mercado brasileiro se recuperou. A Constellation hoje está com todas as suas oito sondas offshore contratadas e é a empresa de perfuração offshore com o maior número de unidades em operação no Brasil. A companhia é responsável por 4% da frota global de sondas flutuantes para perfuração de poços para a indústria de óleo e gás. Uma das unidades, inclusive, está na Índia, contratada pela ONGC.

As outras sete sondas têm contratos no Brasil, e, juntas, respondem por uma fatia de um terço do mercado nacional. A maioria das unidades teve contratos renovados entre o final de 2021 e o começo de 2022, com uma melhoria nas taxas operacionais de 48% em relação aos contratos anteriores. “Fizemos a renovação de cinco contratos, que vão representar uma fase mais sólida de receita”, diz Ribeiro.

Segundo o executivo, a diversificação das empresas que atuam no mercado brasileiro para além da Petrobras contribuiu para que o mercado se tornasse mais saudável. Nos últimos anos, com a venda de ativos da Petrobras e as novas rodadas de licitações de blocos exploratórios da Agência Nacional do Petróleo (ANP), a indústria nacional passou a contar com mais petroleiras. “Houve um retorno de licitações maiores no mercado. Temos hoje contratações para três a quatro anos, o que não víamos há algum tempo. Nossa indústria precisa dessa visibilidade e desse planejamento”, afirma o executivo.

Ribeiro diz acreditar que é fundamental que, nesse novo ciclo de crescimento, a indústria mantenha um olhar atento para manter a cadeia de fornecedores. “Considero a segurança de fornecimento tão importante quando a questão da segurança energética. A indústria precisa de estabilidade. Ciclos muito profundos ou muito altos não ajudam nisso”, diz.

Recomposição do conselho

Agora, com o fim do processo de recuperação, a Constellation quer aproveitar as transformações observadas do mercado. Para tanto, a empresa vai recompor o conselho de administração e passará a ter a primeira mulher como presidente do colegiado. A executiva escolhida é a britânica Maria Gordon, que atuou no Goldman Sachs e na Pimco. “É uma vitória para essa indústria, que ainda precisa entender melhor o papel que tem na diversidade e inclusão. Acreditamos que a diversidade está ligada à inovação e à criatividade”, diz Ribeiro.

O novo conselho toma posse nos próximos dias e, com isso, passará a discutir o futuro da empresa. O atual quadro de diretores executivos, entretanto, será mantido.

Uma das alternativas em estudo para os próximos anos é a possibilidade de operar sondas de outras companhias. Hoje, a estrutura operacional da Constellation permite à empresa operar até 12 unidades sem necessidade de investimentos significativos, diz Ribeiro.

O executivo diz acreditar que a indústria de petróleo e gás no Brasil será competitiva na transição para uma economia de baixo carbono, o que deve ajudar na demanda por sondas. “A transição energética não pode ser radicalizada e não pode se basear em uma única solução para o planeta inteiro. A indústria de óleo e gás tem uma responsabilidade na segurança energética”, diz.

Para ele, o baixo custo de equilíbrio dos projetos no Brasil e a alta qualidade dos reservatórios, com uma produção menos poluente, tornam o país atraente. “O Brasil é forte candidato a brigar por ser um dos hubs de produção de óleo e gás no mundo por algumas décadas. Aqui é o melhor lugar para se estar quando se trata de perfuração offshore [marítima]”, afirma.

Em paralelo, a companhia quer reduzir as próprias emissões de carbono, com investimentos em soluções tecnológicas, como o monitoramento e a digitalização de processos. “Já temos contratos que nos bonificam pela redução das emissões. Acreditamos que é possível garantir a segurança energética do planeta e, ao mesmo tempo, continuar trabalhando para reduzir emissões”, afirma.

Fonte: Valor Econômico

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