VENDA FRUSTRADA DA BRASKEM APROXIMA ODEBRECHT DA RECUPERAÇÃO JUDICIAL

Por Graziella Valenti e Stella Fontes

A suspensão da venda da Braskem para a LyondellBasell e a recuperação judicial da controlada produtora de etanol Atvos, solicitada na quinta-feira passada, colocam a Odebrecht cada vez mais contra as cordas na negociação com os bancos credores.

Com dívidas somadas de R$ 80 bilhões, sendo R$ 40 bilhões com os seis maiores bancos no Brasil, o grupo sustenta um discurso de tentativa de negociação. Contudo, um processo de recuperação judicial é considerado cada vez mais inevitável. Nas conversas, o grupo ainda resiste em admitir essa opção.

O acionista Emilio Odebrecht já teria aceito esse desfecho. Há, contudo, resistência à recuperação judicial no conselho de administração e nas diretorias do grupo.

Sem a recuperação judicial da ODB, o grupo está exposto aos credores e dependente exclusivamente da boa vontade dos bancos.

O fio condutor de um colapso está hoje em Atvos. Boa parte da dívida da companhia de etanol, de um total de R$ 11 bilhões, tem avais e garantias fornecidas pela holding. Caso sejam executados — ou seja, caso algum dos credores decida cobrar a holding diretamente, uma vez que a Atvos não consegue pagar –, podem empurrar um efeito dominó de vencimento antecipado das dívidas que estão na holding.

A Odebrecht é apontada por diversos atores como excessivamente otimista nas negociações, como se não tivesse ciência do quão delicada é sua situação financeira. Tem feito pedidos considerados “fora da realidade” por parte dos credores. Essa posição faz as negociações se alongarem.

Os bancos públicos — Caixa, BNDES e Banco do Brasil — são hoje os menos dispostos a uma solução negociada. Eles possuem a maior exposição e a menor cobertura por garantias, na comparação com Itaú, Bradesco e Santander. Essa é uma das fragilidades da equação. Submetidos ao escrutínio do Tribunal de Contas da União (TCU), os gestores dessas instituições têm maior resistência a acordos nas negociações e mais exigências — muitas também consideradas desproporcionais.

Num cenário de execução de garantias de Atvos, todas as dívidas da ODB e aquelas garantidas por ela teriam o vencimento antecipado declarado. Além das dívidas próprias, a holding é garantidora de alguns compromissos da empresa de incorporação imobiliária OR, do estaleiro Enseada e é ainda emissora dos bônus externos garantidos pela construtora (já em negociação e vencidos).

Itaú, Bradesco e Santander (este com a menor exposição entre todos os bancos) estão mais assegurados com as garantias de Braskem. Quando, em 2016, a ODB buscou R$ 4 bilhões com bancos para aportar diretamente na Atvos, deu o controle da Braskem em garantia. A Caixa ficou de fora dessa cobertura. Na época, Braskem valia perto de R$ 13 bilhões na B3 e a posição de 38% da Odebrecht garantia R$ 4 bilhões.

Em 2017, quando vendeu a Odebrecht Ambiental por R$ 2,5 bilhões, o grupo negociou com os credores colocar mais dívidas nesse volume que eles já detinham debaixo das garantias de Braskem. Com isso, a Odebrecht poderia ficar com os recursos dessa alienação. As dívidas cobertas por Braskem, todas da ODB, subiram então para R$ 6,5 bilhões.

Em 2018, para obter R$ 2,6 bilhões, fornecidos por Itaú e Bradesco, a Odebrecht elevou o total de dívida coberto por Braskem para R$ 12,7 bilhões. Para conseguir levantar esses recursos, a ODB teve que aceitar que os demais bancos colocassem mais dívidas antigas debaixo do cobertor da petroquímica. Nessa época, a Braskem valia na bolsa perto de R$ 40 bilhões e as conversas com a LyondellBasell já tinham começado.

No cenário de uma recuperação judicial da ODB, algumas outras controladas teriam também de recorrer à via judicial, como seria o caso de OR e Enseada. Com isso, a direção desses negócios também precisa se convencer dessa rota.

A Odebrecht Engenharia e Construção (OEC) deve escapar desse desfecho, apesar de enfrentar uma grande crise de contratos. A construtora está, desde o começo do ano, em conversas com credores externos, detentores de US$ 3 bilhões em bônus do grupo. Esses papéis foram emitidos pela subsidiária Odebrecht Finance, controlada pela ODB, mas estão atrelados ao resultado da construtora. O plano segue sendo o de conduzir uma conversa privada e homologar a reestruturação por meio de uma recuperação extrajudicial.

Fonte: Valor Econômico

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