Gol pede recuperação judicial nos EUA

Com dívidas de R$ 20,3 bilhões, aérea informa que prioridade é negociar com arrendadores

A Gol entrou com pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos, o chamado Chapter 11, com dívidas de R$ 20,3 bilhões. Nos últimos dias, a companhia aérea tentou evitar a medida de proteção aos credores, mas acabou seguindo mesmo caminho que as concorrentes Latam e Aviança.

O pedido nos EUA é uma saída para a Gol ter um processo de recuperação judicial mais rápido que no Brasil e que também oferece maior proteção em relação à retomada das aeronaves por parte dos arrendadores.

Segundo o CEO da Gol, Celso Ferrer, o principal objetivo é reestruturar a dívida de R$ 9,8 bilhões com os 25 arrendadores das aeronaves, que seguem a lei americana. Ferrer não detalhou sobre o total das dívidas da empresa e como pretende levantar mais recursos. “É cedo para falar o número exato. O objetivo é desalavancar companhia”, disse.

Os dados mais recentes das dívidas, de R$ 20,3 bilhões, são do terceiro trimestre – esse valor ainda poderá sofrer alteração.

Da dívida total, R$ 3 bilhões são de vencimento no curto prazo, segundo dados até setembro. A Fitch Ratings calcula que a empresa tinha um caixa de R$ 905 milhões nesse período. A Gol reportou que tinha ainda mais R$ 1 bilhão de contas a receber e R$ 2,7 bilhões em depósitos.

Entre os credores estão o banco Mellon, com US$ 537 milhões em títulos que vencem entre 2024 e 2025, a empresa Vibra, com R$ 91 milhões, e a Localiza, com US$ 2 milhões.

Ontem, os papéis caíram 3,16%, a R$ 6,44, a segunda maior queda do dia. As ações da empresa chegaram a ter a negociação interrompida durante o pregão.

Especialistas e fontes consultados pelo Valor apontaram que a recuperação da aérea chega em um momento menos problemático para a setor, ao contrário do que ocorreu com a Latam, cuja tramitação se deu no meio da pandemia, mas há desafios pela frente.

Nos últimos dias, a Gol tentou negociar com credores, em especial arrendadores. Contudo, as conversas foram duras, segundo fontes a par do assunto. Há forte demanda por aviões no mundo, o que prejudicou o poder de barganha da aérea nas tratativas.

Quando a Latam entrou em recuperação judicial em 2020, a demanda por voos estava perto de zero por causa da pandemia. A Azul, ao contrário, conseguiu costurar no ano passado uma ampla reestruturação com credores.

O presidente da Gol, defendeu esperar que o processo corra de forma mais acelerada do que o de outras áreas da região. “Não estamos em cenário de pandemia, quando o setor estava com muita incerteza. Estamos operando agora em um momento de demanda mais consistente. A previsão é de que demore substancialmente menos do que foram os processos da América Latina”, disse o executivo em entrevista aos jornalistas.

Em comunicado, a empresa informou que iniciou o processo com um compromisso de financiamento de US$ 950 milhões de membros do grupo de credores da Abra, controladora da Gol e da Avianca. O recurso, segundo Ferrer, deve ser liberado em breve.

Segundo Ferrer, a empresa não deverá ter redução na sua oferta de voos no Brasil em decorrência do Chapter 11. O executivo disse que não há previsão de redução de pessoal, diminuição no número de bases e destinos.

A aérea garante que as atividades do grupo, incluindo os voos da Gol e da Gollog, de cargas, e do programa Smiles continuam normalmente durante o processo de reestruturação financeira.

No mercado, entretanto, analistas já sinalizaram que a empresa pode reduzir a oferta de voos para regiões mais afastadas, com retorno financeiro menor – rotas mais premium devem ser prioridade.

Ferrer disse que é cedo para dizer se haverá mudança no número de aeronaves ou cronograma de entrega. “Torcemos para a Boeing normalizar produção.”

A recuperação judicial da Avianca Brasil (OceanAir), por exemplo, foi um duro golpe no bolso dos consumidores. O preço médio para se voar um km em 2018 (chamado de yield) era de R$ 0,42575. A Avianca Brasil pediu recuperação judicial em dezembro de 2018. Em 2019, o yield médio nacional subiu 7%, para R$ 0,4557. Os dados são da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e foram corrigidos pela inflação até outubro. Vale destacar que o processo foi tocado no Brasil e, desta forma, a empresa acabou ficando sem aviões para operar.

Questionado sobre o pacote do governo ao setor, o executivo disse que a empresa irá avaliar a ajuda assim que o programa for, de fato, oficializado. O governo federal anunciou nesta semana que estuda um fundo para liberar até R$ 6 bilhões às aéreas.

Fonte: Valor Econômico


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