Com dívida de R$ 1,1 bilhão, rede Dia pede recuperação judicial

Empresa queima R$ 1 milhão de caixa ao dia e “situação é insustentável”, diz CEO; plano envolve demissões e fechamentos de CDs para cortar despesas

A operação brasileira da rede de supermercados Dia entrou nesta quinta-feira com um pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) por conta de uma dívida total de R$ 1,1 bilhão — deste montante, R$ 268 milhões são passivos com bancos. Fornecedores são os principais credores do grupo.

O Dia (da sigla Distribuidora Internacional de Alimentación) é controlado por um grupo espanhol com vendas anuais de cerca de 7 bilhões de euros (R$ 36 bilhões) no mundo. Cerca de 77% da rede está nas mãos do fundo Letterone.

A piora recente de uma crise que se estende há anos — foram quatro CEOs no país em cinco anos — e a dificuldade de renegociação de débitos aumentaram o risco de um pedido de falência pelos credores, obrigando a rede a buscar proteção judicial.

Em entrevista ao Valor, o novo presidente da companhia, Sébastien Durchon, disse que uma forte queda nas vendas, especialmente após 2022, somada a um cenário de pressão das taxas de juros sobre os passivos têm feito a rede consumir cerca de R$ 1 milhão de caixa diariamente.

Outras soluções foram analisadas até semanas atrás, como a venda do negócio a fundos de investimento, como antecipou o Valor, mas não houve avanços.

“É insustentável, não temos outra saída, a não ser a proteção judicial. Precisamos de tempo para reconstruir a companhia, para voltar a crescer”, diz ele, que está há três semanas no cargo e foi contratado para liderar esse processo.

“Eu não entrei aqui para fechar a empresa”, afirma. “Daremos dois passos atrás para dar quatro passos lá na frente quando sairmos disso. Não é uma atitude fácil, mas temos que fazer um ajuste mais corajoso, que já começou com o anúncio fechamento de parte das lojas dias atrás”.

Demissões e estrutura menor

Foi comunicado, na semana passada, o encerramento de 343 lojas do total de 587 unidades existentes no começo do ano, restando 244. Desta forma, o Dia passa a operar apenas em São Paulo, a praça mais rentável do país. Mas a região também pode ter fechamentos pontuais, se necessário.

As 343 unidades ainda estão em processo de fechamento, em liquidação de estoques. Entre os 244 pontos restantes, 123 são franquias e 121 são unidades próprias da empresa.

São 5,5 mil funcionários diretos do Dia no país hoje, e a empresa manterá apenas 2 mil empregados após a atual reestruturação. Mais 2 mil são empregados indiretos e devem ser mantidos.

Além disso, atualmente são quatro centros de distribuição: em Belo Horizonte, Americana (SP), Mauá (SP) e Osasco (SP). Os três primeiros devem ser fechados, restando apenas o de Osasco.

Na documentação à vara empresarial, para justificar a necessidade de proteção judicial, a cadeia cita ainda a forte crise que afetou o varejo após a pandemia, além da escalada da Selic. Apesar de ser uma subsidiária do grupo espanhol, toda a dívida da empresa é local — o principal banco credor é o Santander. Ainda são credores o Daycoval e o Banco do Brasil.

A operação da varejista passou a dar sinais de problemas de cinco a seis anos para cá, mostram balanços do grupo.

Passado distante

O passado de resultados recordes e crescimento acelerado, com um modelo invejado de eficiência operacional traduzido em preços baixos, o chamado “supermercado de descontos”, foi ficando cada vez mais para trás.

Em 2019, quando a venda encolheu 14% em moeda local, houve a descoberta por parte da matriz de fraudes contábeis, envolvendo estoque e bonificações da indústria, que obrigou uma intervenção mais direta da sede na rede.

Depois disso, em 2020, a receita chegou a subir um pouco, 4,5%, com a maior demanda por alimentos na pandemia, mas no ano seguinte a receita voltou a cair, assim como em 2022 e 2023.

Segundo Durchon, a situação se deteriorou de forma mais acelerada nos últimos 18 meses.
Nesse período, o Dia perdeu 25% da sua receita, afetada por um recuo em volume vendido nas lojas, após fechamentos de pontos deficitários em anos seguidos, e pela deflação de alimentos. De acordo com dois ex-funcionários ouvidos, as saídas propostas pelas diretorias anteriores não deram certo, o que contribuiu para o desempenho atual.

“Virou um círculo vicioso, porque a operação não melhorava, mais lojas ficavam no vermelho, aí eles fechavam essas lojas, e consequentemente, a venda caía mais. Renegociaram dívida em 2020, alongaram passivos, mas isso não resolveu”, diz um ex-diretor.

O ambiente de maior competição com canais com forte apelo promocional, como o atacarejo, teve impacto no negócio. O tema chegou a ser citado pela empresa em relatório recente de resultados. Em 2023, a venda líquida no país foi de R$ 730 milhões, recuo de 18%.

Nos últimos dias, Durchon tem se reunidos com fornecedores, franqueados, funcionários e bancos, na busca de apoio para uma reestruturação — ele não chegou a mencionar a hipótese recuperação judicial às partes.

Nesse processo, os fornecedores precisam apoiar a rede para manter o abastecimento das lojas (ponto fundamental até aprovar o plano de recuperação) e as franquias têm que continuar abertas. Elas serão 50% das lojas após os encerramentos. Os bancos têm menor parte da dívida, pouco mais de 25% do total.

Tratativas com credores

Foram enviados comunicados a 120 dos 600 fornecedores nos últimos dias, nos quais se explicava a situação da rede. No início da semana que vem, há reuniões marcadas com fabricantes. Durchon ainda fez encontros com franqueados para tranquilizá-los sobre a fase atual.

O executivo não vê o risco de que franqueados rescindam o contrato com a rede, e não confirma se o contrato permite isso, por conta da excepcionalidade do pedido de recuperação.

“Não falamos de ‘RJ’ com eles, mas até o momento não tivemos nenhum franqueado falando em fechar loja, pelo contrário, nos deram apoio”, diz o CEO. “O franqueado está no risco com a empresa, ele investiu o dinheiro dele. Mas vemos as franquias como uma fortaleza, e disso isso a eles. É um de nossos DNAs, e vamos trabalhar para mantê-los abastecidos.

As franquias da rede compram da empresa, que precisa manter as entregas da indústrias para evitar ruptura nesse processo.

É nessa hora que muitas varejistas em recuperação têm problemas, porque há o desabastecimento, a venda cai e o cliente não volta.

Durchon, como diretor financeiro do Carrefour de 2014 a 2021, estava à frente da rede na sua abertura de capital no Brasil em 2017, e iniciou a complexa integração do Big com o Carrefour, em 2022. Apesar da experiência, é a primeira vez que preside uma varejista, e num momento dificílimo.

Para reforçar a equipe, contratou Mario Toledo (ex-Big) e Dacio Moraes (ex-Carrefour), ambos executivos do Dia no passado, para a linha de frente.

Sem soluções na mesa

Durchon não comenta outras soluções que estavam na mesa, mas o Valor apurou que, após sondagens da empresa no mercado, fundos de investimento chegaram a fazer propostas para comprar a rede neste ano.

Um acordo envolveria, inicialmente, alguma capitalização dos controladores na empresa antes da venda, por causa da dívida. O problema é que essa ideia não agradava os acionistas. “Os espanhóis já injetaram muito dinheiro aqui, inclusive após a descoberta da fraude”, diz um ex-funcionário.

A respeito dos trabalhadores, a empresa decidiu não dispensar os empregados das unidades fechadas até entrar com a recuperação judicial. Isso porque, se isso ocorresse, os trabalhadores iriam se tornar credores na Justiça. Ao excluí-los do processo, a dívida entra como não concursal, e, logo, tem prioridade no pagamento.

O foco daqui para frente é ter o pedido de recuperação homologado pela Justiça e, então, montar o plano de recuperação em 60 dias, prazo definido por lei.

A hipótese de venda de ativos da rede é pequena, porque não há muito o que vender. “De imóveis é quase nada, é tudo alugado. Mas temos créditos de ICMS de mais de R$ 300 milhões, e vamos nos debruçar num plano que dê o tempo que precisamos, e que volte a gerar caixa para os pagamentos”, afirma.

Algumas ações começam a ser colocadas de pé pela rede, como o corte de despesas com as lojas a serem encerradas, e a entrada de recursos no caixa com as liquidações de produtos nessas unidades. As promoções devem durar cinco semanas. Ainda está previsto um maior fortalecimento da marca própria nas lojas, uma referência da empresa por décadas, e que ainda responde por mais de 20% das vendas.

Fonte: Valor Econômico


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